Tua Minha
Meu diverso
No teu inverso
Párias do Tempo
Carcomido
Em desejos
Incertos Incestos
Tua Minha
Meu diverso
No teu inverso
Párias do Tempo
Carcomido
Em desejos
Incertos Incestos
CÁPITULO 3
Maria e Leanor retornam da caverna. Maria à frente carregava sua mochila de livros seguida por Leanor que trazia numa vareta que transportava sobre o ombro atada a alguns animais pequenos que caçara na floresta.
De longe algumas mulheres que lavavam roupa na beira do rio as saudaram com gritos e risadas.
Maria sorridente entregou a Leanor sua mochila e foi para junto das mulheres.
- Pensei que iam se esconder pro resto de suas vidas!
- Bem que essa idéia passou por nossas cabeças... Para acabar com essa cobrança de vocês... -Toma da mão da outra um tecido que lavava e começa a executar a tarefa deixando que a outra se sentasse em uma pedra descansando.
- Quando vão partir?- Diz olhando na direção de Leanor que se distanciava.
- Não sei... Depende de Horácio!
- Sinceramente, Maria... Não vejo sentido nessa viagem de vocês duas!
- É necessária, Laia!
- E quando voltarão?
- Não sei... Quando cumprirmos a missão... Trarei comigo o novo herdeiro!
- Que seja!
- Êia, Eleanor! Como tem passado, Cidadão?
- Bem... Horácio está aonde?
- Horácio está com os outros na lida...
- E você... Que faz aqui sentado pegando vento! Ela diz brincalhona.
- Ando doente... Estou velho, Eleanor! Veja! Nós do começo dos tempos estamos morrendo... Os que vão ficar não podem ter filhos... São consangüíneos! Eles podem nascer como Arão, um ser tão maravilhoso... Mas que não pode gerar mais ninguém.
- Arão é uma criança grande, Histos...
- Ele é meu filho! Chegamos à decisão final...
- Nós iremos: eu e Maria e traremos o descendente!
- Muito leal da sua parte, Eleanor... Eu tive um sonho noite passada... -interrompe a fala para observar as mulheres que voltavam do rio. – Olhe... Todas estão velhas... Daquele grupo só Maria se sobressai em juventude... - Olham na direção do campo, os homens já se movimentavam na direção da aldeia. - Olhe suas silhuetas... De velhos alquebrados... Deles, Só se destaca a figura maravilhosa de Arão e a delgada de Jobião... Não nos restam muita coisa além de você, Maria, Arão e Jobião...
- Mas, que sonho teve?
- Um sonho... Cheio de coisas que não entendia! Acho que de coisas que meu pensamento acha que estão do lado de lá...
- O lado de lá será que existe?
- E o de cá?
- Cá estamos aqui eu e você... Olha em volta! Essa beleza de paisagem!
- Não queria contar Eleanor... Mas, se aproxima um pouco!- Eleanor se aproxima do velho senhor. - Há uns anos atrás, alguém se aventurou nessa empreitada...
- Quem?
- E esse é meu temor... Talvez o motivo de meus sonhos, que de tão confusos chegam a ser pesadelos...
- Diga-me... Quem foi?- Pergunta curiosa.
- Foi Tassus...
- Nunca ouvi esse nome em nenhuma história da aldeia...
- Esse nome foi escondido... Renegado...
- Ele foi e nunca voltou?- O velho balança afirmativo. - Quem era Tassus?
- Seu irmão! Mais velho que você... A ele foi dada a mesma missão... Até hoje esperamos seu retorno... O retorno do filho pródigo!
- Quem sabe algo muito ruim aconteceu...
- Quem sabe?! Quem vai saber?
- Nós... Eu e Maria, quando chegarmos lá!
- Aquiete o seu espírito, Eleanor... Você é destemida! Mas, esqueça o que lhe contei! Concentre-se no objetivo de sua missão... E traga-nos o herdeiro!
- Ou a herdeira!
- Que seja!
- Importante é que encontremos quem dará prosseguimento!
- Ele está lá... Mas, tenham cuidado... Depois que acordo de meus sonhos, meu corpo treme como se um frio invadisse minha alma!
- Conseguiremos!
- Por você acredito... -Olha na direção de Maria que se aproximava. - Não sei... Por ela!
- Por que diz isso, Histos?
- Por que ela sabe e estudou a ciência do lado de lá... Por enquanto é tudo tão improvável em sua cabeça, a verdade de lá não passa de símbolos... Letras dos livros que lê... Quem sabe o que acontecerá? Quem sabe o que aconteceu a Tassus? Será que lhe faltou a consciência da missão que iria cumprir?
- É por isso que eu fui dada a Maria e ela a mim?- Histos sorrir afirmativo. - Eu devo estar ao seu lado como a lembrança do aqui... Para que ela não se perca!
- Você não sabe... E sua ignorância a salvará! E se tudo for como deverá ser... Protegerá Maria... Quando a claridade cegar os seus olhos!
Maria aproxima-se sorrindo com o cabelo ornamentado por flores amarelas.
- O que tanto confabulam?
- Sobre hoje... E também um pouco do amanhã...
- Sempre o misterioso Histos... - Beija-o no rosto e olha para Eleanor. - Vamos para casa?
- Vamos! _ Eleanor diz e estende-lhe a mão e saem abraçadas, acompanhadas pelo sorriso de Histos.
- Que seja!- Ele diz baixinho e volta a olhar para a floresta a sua frente.
Eleanor caminha na direção da casa com pensamentos nunca tidos, sobre seu irmão. Antes de entrar ainda vê mais uma vez para a figura curvada de Histos que olhava com olhos perdidos na floresta.
- Em que pensa, cidadão?- Assusta-se com a voz de Horácio já a seu lado.
- Na vida, cidadão!- Diz sorrindo.
- Vocês partirão pela manhã... Já preparei a barca, está amarrada na beira do rio. - Horácio falava sem olhá-la enquanto Eleanor admirava aquela figura alta e forte, de testa alta e queixo que parecia esculpido em pedra.
- Não quero despedida!- Diz impondo firmeza à voz. Horácio sorrir.
- Não precisa disso, Eleanor... - Virando-se em sua direção sorrir. - Você é cidadão, mas é mulher... Todos estarão lá! Na partida e aguardando a chegada!
- Obrigada Horácio! – diz Eleanor com lágrimas nos olhos.
- Será uma grande travessia... Terão que tomar cuidado!
- Eu sei! E Maria?
- Lá dentro de conversa com a mãe!
- Não há nada mais a se falar?
- Não... -Ele a olha perscrutador. - Vi de longe você conversando com Histos... O que faltava a ser dito sem dúvida ele o fez... Histos é o mais sábio de todos!
Eleanor sentiu como se entre eles houvesse um elo invisível de comunicação, o olhar bastava para tudo, como se conhecessem e adivinhassem todas as possibilidades do que poderia acontecer.
-Conseguiremos Horácio?
- Essa, eu não sei responder! O mistério esta aí... Por aqui não existem mistérios, Eleanor! É tão fácil desvendar nossos pequenos segredos... Por que não existem chaves para eles, no momento oportuno eles são passados... E é natural que seja assim! Mas, de lá... Não sei muito porque nunca andei por lá com este desejo, de me apropriar dos mistérios de lá! Agora de uma coisa sei: a missão de vocês será árdua, pois para cumpri-la terão de nunca esquecer a essência de suas vidas... Do lado de lá são outros os mistérios... As crenças são outras!
Estamos com uma nova parceria para incrementar o nosso blog e deixá-los mais inteirados com o universo plástico contemporâneo Gay. Serão publicados com os textos imagens de trabalhos elaborados pela artísta visual Suzanne Arensberg.
Suzzane é natural de Londres, mas atualmente desenvolve suas obras entre sua cidade Natal e o Brasil. Convidamos esta artista para acrescentar aos nossos textos uma linguagem visual inspirada nas personagens e poesias de Marina Moran.
Que a ARTE enebrie seus olhos e suas mentes com um constante prazer estético. Respirem!
Obrigada e um grande abraço
CAPÍTULO 2
- O que você tanto lê aí, Maria?- Maria sorrir e fecha o livro jogando-o a um canto aproximando-se da entrada da caverna, onde se encontrava Leanor.
- Só escuridão lá fora... Se essa vela acabar, aqui dentro também!- Leanor sorrir e a abraça.
- Não sente frio... Eu sinto! Depois, vamos poupar a luz... Três dias!Que tal uma fogueira?-Apressa-se em empilhar umas madeiras que estavam a um canto.
- Completaremos a quarentena!
- Sem dar satisfação? E o teu pai e os cidadãos... Você viu que as futricas nos viram hoje? Sem dúvida já chegou aos ouvidos de Soraia o nosso paradeiro!
- E o que tem isso?- Maria levanta-se desafiadora. - O que Soraia poderá fazer?
- Soraia queria você para Jobião...
- Horácio me deu a você... –Elas se entreolham e sorriem.
- Que seja! – Repetem.
- Depois quem lucrou fui eu... Estarei unida a Leanor, filha do velho Bianor, única herdeira de sua lenda!
- A aldeia... E pensar que Bianor foi o Adão... Filhos sem conta tiveram – Ele e Sinara! E eu a última... A última de uma criação!
- A herdeira! Por que Soraia não ia querê-la na nossa casa? Como não? A filha do precursor? Uma estirpe pura!
- Que me respeite Soraia! Eu sou um cidadão! Está certo que quando voltarmos terei que dá uma satisfação... - Maria acaricia o rosto de Leanor.
- Muito bela para estes jeitos... Esses gestos de homem... Pode ser um cidadão por herança, um cidadão de respeito... Mas é mulher e igual a mim! Por que me escolheu Leanor?
- Por que a amo! Como Sofia minha irmã também amou Raquel... Lembra da lenda das duas... Irmãs e irmãos se casaram... O seu avô é fruto dessas relações sanguíneas! Lembra das tentativas em ter filhos... Como nasciam? Você nasceu perfeita, a única... Horácio foi trazido pelo velho Sabino, não tinha o mesmo sangue de vocês e foi dado a Soraia que a teve... Perfeita! Você seria a continuação do Velho Sabino, mas eu a amo desde o primeiro momento... Horácio sabe disso e a deu a mim... Ele sabe que teremos de cumprir uma promessa... Que teremos que fazer nossa lenda... Unidas sairemos daqui... Iremos para o outro lado... E voltaremos com nossos filhos! Essa é a promessa! Tantos já morreram... Cabe a nós cumprir a promessa!
- Eu leio tanto os livros que Horácio me traz - nossas lendas, nossas vidas são tão estranhas em relação ao que leio e vejo nos livros!
- Entenda Maria... Somente a você foi dada a luz do conhecimento destas coisas... Ninguém que existe na aldeia sabe do que você sabe... A não ser Horácio que sempre viaja... Iremos para o outro lado sim! Eu confio em você como minha luz, meu guia!
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